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Mr. Vincent and his wife (1961) - Paula Rego (1935)

Mr. Vincent and his wife (1961) - Paula Rego (1935)

Calouste Gulbenkian Museum, Modern Collection, Lisbon, Portugal

Material: Oil and collage on canvas
Collection: Calouste Gulbenkian Museum, Modern Collection
Inv.: 83P448

ABOUT THE WORK

“O período que se seguiu ao encontro com Dubuffet foi extremamente produtivo para Paula. (...) Na excitação desta redescoberta, que a pôs de novo em contacto com o espírito intuitivo que a impulsionara a desenhar histórias para seu prazer, começou a fazer um quadro por dia, e pela primeira vez, a incorporar colagens. A princípio, as imagens provinham de revistas, mas quando não encontrava a imagem requerida, pintava-a ou desenhava-a, e depois, cortava-a.”*



Efectivamente, este quadro enquadra-se numa fase da produção da artista onde encontramos obras com características similares: Retrato de uma Senhora (1959), Refeição (1959), Provérbio Popular (1961), Quando tínhamos uma casa no campo (1962) ou Aurora Latina (1962). Em todas elas, observamos afinidades relativamente aos materiais e técnicas (colagem e óleo sobre tela) e ao tipo de composição.



Na obra O Senhor Vicente e a sua Esposa (1961), a artista recorre a recortes de jornais, de papel craft, de vinhetas de banda desenhada, de desenhos da sua autoria, de papéis manuscritos, de trechos de obras literárias, intercalando, sucessivamente, o acto de desenhar, pintar, recortar e colar. A obra é assim estruturada como um palimpsesto, emergindo através da cumulativa adição de camadas num processo que parece pensar-se (e deleitar-se) no próprio acto de se ir fazendo. Deste modus operandi resulta uma característica particular da obra: uma textura evidente, adicionando uma dimensão táctil à visual.



Ainda que figurativa (dimensão corroborada pelo título narrativo), a obra assume uma bidimensionalidade directamente derivada do seu processo de realização: a sucessiva adição de colagens. Sobre um fundo em tons terrosos e azulados, a composição estrutura-se em torno de dois eixos. Do lado esquerdo, destacando-se pelo contraste cromático, temos o grupo figurativo de maiores dimensões, onde parece distinguir-se a representação da cabeça de um homem com barba (o Senhor Vicente?**); do lado direito da composição, sobressaindo também cromaticamente em relação ao fundo, observamos uma figuração de menores dimensões (a esposa?).



Para além desta apreciação da composição em “plano geral”, necessário é que façamos um “close up”, pois a obra convoca essas duas escalas de percepção. Assim, se nos aproximar-mos do grupo do lado esquerdo, notamos como ele é composto por uma plêiade de diversos elementos de pequena escala: papéis manuscritos, recortes de banda desenhada, recortes de imprensa, recortes de diversos desenhos de corpos femininos. Se nos aproximarmos da figura do lado direito, observamos uma configuração semelhante, ainda que com maior presença do desenho (traços circulares a grafite, riscos a pastel e a óleo) e menor elaboração. A ligar os dois grupos, um discreto traço amarelo na parte inferior da composição — colorindo recortes sobre uma suposta crónica da expansão portuguesa — e a direcção do olhar da figura do grupo da esquerda.



Palimpsesto sinestésico que nos convida a um permanente afastamento e aproximação, na descoberta de novos elementos e na contínua invenção de possíveis significados.


* John McEwan, , Paula Rego, Lisboa, Galeria 111/Quetzal Editores, 1998, p. 67



** Em depoimento por correspondência electrónica, datada de 13.03.2014, Paula rego explica que o mencionado Sr. Vicente era a pessoa que então lhe vendia as obras.


Luísa Cardoso

Julho 2014

SOURCE: gulbenkian.pt/museu/works_cam/sr-vicente-e-a-sua-esposa-1...

BIOGRAPHY

A “portuguesa de Camden Town”, como lhe chamava o poeta Alberto de Lacerda, vai estudar para Inglaterra aos 16 anos porque nas palavras do pai, Portugal «não é terra para mulheres».

Desmontar jogos de poder, denunciar o autoritarismo político, a hipocrisia, expor o sofrimento no amor e a sexualidade encapotada, exaltar o poder feminino, não menos violento, perante todas as agressões, são alguns dos princípios subjacentes a uma obra, que desde a primeira exposição em Lisboa (SNBA, 1965/66), até hoje, continua a suscitar tanto a admiração quanto o embaraço.

Considerada durante décadas como “artista marginal”, porque indiferente às artes conceptual e performativa dominantes na Inglaterra, obtém o reconhecimento do establisment artístico britânico quando, em 1990, aceita ser a primeira “artista associada” da National Gallery, em Londres.

Se tivesse ficado em Portugal possivelmente teria sido «uma bêbada profissional» afirmou numa entrevista a Marco Livingstone, comissário da retrospectiva realizada no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madrid, 2007. A ida para Inglaterra foi decisiva, de outra forma nunca poderia ter faltado às aulas da Slade School of Art para ir ao cinema ou conhecido Victor Willing (1928-1988), intelectual, pintor, marido cúmplice da sua obra, cuja morte lenta inspirou novas metáforas, trevas e sombra que apreciava comentar.

Em criança, na companhia do pai, Paula Rego sentia um prazer especial em ver as gravuras de Gustave Doré, publicadas no livro “O Inferno”, de Dante. Sem o menosprezo «snob das belas artes» relativo à ilustração, a sua pintura privilegia contar uma história, o suspense, ultrapassando a obra na qual se inspira, seja ela proveniente da literatura oral ou escrita, pictórica, musical ou cinematográfica.

Conseguir passar «da cabeça para a mão» a corrente torrencial de imagens, sem censura, é um objectivo constante, muito embora, desde a série a pastel “A mulher-cão” (1994) utilize com frequência modelos, sobretudo Lila Nunes, antiga enfermeira de Victor Willing.

O prazer físico de cortar e colar desenhos, modus operandi de finais dos anos 50 até ao início da década de 80 – gerando quadros abstractos e viscerais, numa clara inspiração em Jean Dubuffet, defensor da Arte Bruta – foi assimilado à pintura a pastel das últimas décadas.

Criadora de fábulas, Paula Rego desenvolve um trabalho prévio de metteur en scène. Em Londres, o atelier é um palco secreto, no qual contracenam «fantasmas», alguns deles nascidos de esculturas que a pintora constrói. Longe de Portugal, a pátria que os inspira, submetem-se. Aqui «eles não virão mordê-la no rabo», lembra Nicholas Willing, o filho cineasta. Como a pintura é uma forma de «magia poderosa», esses fantasmas correm somente para dentro de quem os teme.



SN

Maio de 2010

SOURCE: gulbenkian.pt/museu/artist/paula-rego/

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Photo taken @ S on 13 November 2019 (© pedrosimoes7 / Flickr)

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