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Horrid silence of your Body (1966) - António Palolo (1946-2000)

Horrid silence of your Body (1966) - António Palolo (1946-2000)

Calouste Gulbenkian Museum, Modern Collection, Lisbon, Portugal

Material: Oil on hardboard
Collection: Calouste Gulbenkian Museum, Modern Collection
Inv.: 67P295

ABOUT THE WORK

Hórrido Silêncio do Teu Corpo

O Hórrido Silêncio do Teu Corpo (1966) evidencia a aproximação de Palolo às correntes anglo-saxónicas da Pop, rara entre os artistas portugueses, optando pelo suporte em platex, pela gama de cores lisas e brilhantes muito contrastadas, e pela repetição de padrões lineares e bandas bicolores, evocando o psicadelismo das experiências visuais dos anos 60. O vocabulário formal da Pop surge, porém, no contexto das suas pesquisas neofigurativas e da construção experimental da imagem através do confronto de discursos artísticos, combinando as linguagens abstratas e figurativas, figuras humanas e formas geométricas. Apesar de manter o formato tradicional da tela, esta é internamente fragmentada, segundo a lógica da colagem, revelando a sobreposição de planos e perspetivas dentro do quadro.



Na metade inferior, vêem-se os órgãos vitais (coração, pulmões, traqueia) de um corpo parcial, ao qual se ligam, através de tubos e cabos, máquinas várias, roldanas e sistemas de pressão, ocupando a parte superior. Como desconstruídos e reconstruídos pelo pintor, estes elementos dão lugar a um organismo pulsante, com ritmo cardíaco e líquidos fluindo, contendo ainda as marcas da assemblage, nos detalhes da fuselagem, pregos, juntas e argolas que unem a livre associação de formas. Apesar da ambiguidade de sentidos que caracteriza esta pintura, o título – raro nas suas obras de então – é retirado de um poema de Artaud (La momie attachée, 1925)* atestando a herança surrealista, e abrindo leituras existencialistas para o coração escarla--te e os fusos a rolar, contra a negra paisagem do fundo. Para mais, a fragmentação simultânea desta imagem do corpo, e do corpo desta imagem, revela no seu lugar uma aparatosa máquina que, movida por engrenagens ocultas, reconhece a artificialidade da pintura e a falência da representação ilusionista, e ao mesmo tempo mostra-a a fabricar novas estratégias a todo o vapor, cuja energia, mecânica e complexidade, contra os que a diziam moribunda, confirmam-na viva.




* Na versão de António Ramos Rosa (Livro? Editora?), o poema de Artaud intitula-se A Múmia Suspensa: “Tenta o tronco com o olho morto / e revirado para este cadáver, / este despelado cadáver que se lava / no hórrido silêncio do teu corpo. / O ouro que cresce, o veemente / silêncio em cima do teu corpo / e a árvore que carregas ainda / e este morto que adiante vai. / - Olha como rolam os fusos / nas fibras do coração escarlate / este grande coração onde o céu deslumbra / enquanto o ouro te submerge os ossos. / É a dura paisagem do fundo / que enquanto caminhas se desvela / e a eternidade sobrepassa-te / porque não podes atravessar a ponte.”



Afonso Ramos

Abril 2013

SOURCE: gulbenkian.pt/museu/works_cam/horrido-silencio-do-teu-cor...

BIOGRAPHY

Nascido em Évora em 1946, António Palolo é um autodidata cuja obra emerge precocemente, revelando desde logo uma maturidade invulgar. Expõe individualmente pela primeira vez em 1964, na Galeria 111, Lisboa (galeria à qual irá ficar ligado até ao início da década de 1980).

Nos anos imediatos a sua reputação consolida-se. O período entre 1972 e 1974 foi "de grande sucesso para a sua pintura; e foram anos em que a par de uma intensidade de trabalho, pôde viajar e conhecer grandes museus europeus". A retração do mercado após a revolução do 25 de Abril irá afetar a progressão da sua carreira.

Ao longo das décadas de 1970, 80 e 90, Palolo marca presença regular no panorama artístico português; envolve-se com uma multiplicidade de galerias e instituições (Galerias: Quadrum, Altamira, Valentim de Carvalho; Sociedade Nacional de Belas Artes, etc.), e apresenta o trabalho em mostras coletivas em Portugal e no estrangeiro.

Em 1995-96 realiza uma grande exposição antológica no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentando obras representativas de todo o seu percurso artístico.

OBRA

Localizando-se num território ambíguo, entre figuração e abstracção, as suas obras iniciais "são composições desordenadas e caóticas" povoadas por uma multiplicidade de elementos, dos pequenos sinais às formas abstratizantes, "e onde se inscreve uma rigorosa definição geométrica".

Esse universo formal evolui rapidamente para um idioma marcadamente Pop, informado "por uma cultura onde abundava a banda desenhada, o folclore hippie, e a fantasiosa alegria das cenas primitivas". As suas colagens de pequeno formato aproximam-se do exemplo de Rauschenberg, e nelas vemos confluir elementos pictóricos abstratizantes, expressivos, juntamente com fragmentos "do universo popular, recortes de jornais, figuras impressas nos meios de comunicação de massas". Irão seguir-se "investidas psicadélicas […] cujos signos desintegram não só a unidade da imagem, mas também desarticulam as conexões com o real", e para onde confluem figuras, elementos abstratos e geométricos, alusões à paisagem, a objetos e fragmentos arquitetónicos, como acontece, por exemplo, em Hórrido o silêncio do teu corpo, 1966.

Nos primeiros anos da década de 1970 as alusões figurativas desaparecem (veja-se Sem título, 1973, coleção CAMJAP/FCG). Palolo assume uma opção de cariz geométrico onde "sobressaem estruturas, ângulos, quase simulações de objetos". "O sentido lúdico, a ironia extrema dos seus quadros prevalece e agudiza-se", numa arte "a que a mais absoluta simplicidade expressiva finalmente responde"[6]; e em 1975-76 assiste-se a uma "radicalização das pesquisas que […] vinha elaborando em torno das sequências cromáticas"[7], em trabalhos de grande depuração – constituídos, nos casos limite, por uma grelha regular de barras paralelas verticais de cor plana, opaca –, onde se aproxima dos princípios programáticos do minimalismo.

No final da década de 1970 desenvolve linhas de trabalho que dão conta de uma vocação experimental diversa. Expande a sua ação para novos territórios, novos meios de expressão: realiza as exposições/instalações Crater-Calice, Mente e Rear Vision na Galeria Quadrum, Lisboa; dedica-se ao cinema experimental e à performance (que regista em vídeo).

No início da década de 1980 o seu trabalho muda de rumo. A essa alteração não serão alheias as novas direções da cena artística internacional, então dominada por um regresso à pintura figurativa de pendor expressionista. Em certa medida, Palolo aproxima-se da Transvanguarda italiana, mas a sua obra "deste período não é um decalque de tendências […] então em voga". Ao libertar-se do rigor geometrizante irá redescobrir a expressividade presente nas suas obras iniciais e pô-la ao serviço de novos objetivos.

A sua pintura é invadida por figuras ambíguas, por um mundo de "seres fantásticos, guerreiros de sonhos primordiais" que dialogam com formas abstratas e fundos por vezes tumultuosos: "Estes corpos desmaterializados, sem rosto nem espessura, são os elementos pictóricos de um trabalho sem sentido descritivo, e que se organiza para além do visível, em torno de um espaço cósmico feito de enigmas e decifrações".

Essa incursão figurativa prolonga-se "até ao início da segunda metade dos anos 80, altura em que o artista faz uma síntese dos aspetos essenciais da sua obra para se fixar numa linguagem e num programa que havia de durar até ao seu desaparecimento prematuro, em 2000"]. Ao rigor das abstrações mais despojadas da década de 1970 irão associar-se valores pictóricos aprendidos antes e depois dessa fase, numa síntese onde a subtil utilização de variações cromáticas, texturas e transparências, se submete a "uma refinada geometria".

SOURCE: Wikipedia

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Photo taken @ S on 13 November 2019 (© pedrosimoes7 / Flickr)

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